
O mercado cresceu. A tecnologia evoluiu. As obras ficaram maiores e mais exigentes. Mas estamos perdendo justamente quem precisa executar tudo isso.
Vou interromper por três artigos a sequência de temas técnicos que venho publicando neste espaço. Faço isso porque acredito que existe uma discussão que o setor de impermeabilização precisa enfrentar, e que talvez seja um pouco incômoda.
Não estamos falando apenas de falta de mão de obra. Estamos falando de decisões que tomamos durante anos, dentro das construtoras, das incorporadoras, das empresas de impermeabilização e do próprio mercado, e que começam agora a produzir consequências bastante visíveis dentro das obras.
Quem está no canteiro provavelmente já viu a cena. Uma grande área está liberada para impermeabilização, o cronograma está correndo e diversas atividades seguintes dependem daquele serviço. Entretanto, aparecem dois, três ou quatro profissionais para executar uma frente que claramente precisaria de muito mais gente.
Em alguns casos, a equipe começa o serviço e depois precisa sair para atender outra obra mais urgente. Alguns dias depois retorna. A produção perde ritmo, o cronograma começa a ser pressionado e a empresa de impermeabilização tenta administrar várias urgências ao mesmo tempo.
Nesse momento, quase sempre surge a mesma explicação: “Está faltando mão de obra.”
Talvez essa não seja a pergunta certa.
Talvez a pergunta que realmente devêssemos fazer seja outra: o que fizemos com as empresas de impermeabilização que tinham capacidade para formar, manter e organizar essa mão de obra?
Estamos perdendo capacidade de execução
Durante décadas, o mercado brasileiro de impermeabilização contou com empresas especializadas que possuíam equipes maiores, encarregados, supervisores, estrutura administrativa, equipamentos, planejamento, logística e profissionais capazes de atender simultaneamente diferentes obras.
Essas empresas tinham suas dificuldades, naturalmente, mas possuíam algo que hoje começa a fazer falta: capacidade instalada.
Tinham pessoas, estrutura, profissionais experientes formando profissionais mais novos e condições de deslocar uma equipe para determinada obra sem necessariamente comprometer todas as demais.
Tudo isso tinha um custo.
E foi justamente nesse ponto que o mercado começou a mudar.
Quando reduzir custo parecia uma excelente decisão
Durante muitos anos, construtores, incorporadores e contratantes perceberam uma oportunidade aparentemente bastante lógica. Por que contratar uma empresa estruturada se um bom aplicador, muitas vezes vindo daquela própria empresa, poderia executar o mesmo serviço por um preço menor?
O raciocínio econômico era compreensível. O profissional conhecia o sistema, sabia aplicar, tinha experiência e, em muitos casos, possuía excelente domínio técnico. Abriu sua empresa, contratou um ou dois ajudantes e passou a oferecer diretamente o serviço que antes executava como funcionário.
O preço naturalmente ficou menor.
Mas havia algo sendo retirado daquela composição de custos. A estrutura menor significava também menos administração, supervisão, treinamento, planejamento, engenharia, segurança, equipamentos e logística. Em muitos casos, reduziam-se ainda os investimentos na formação de novos profissionais e a capacidade financeira necessária para sustentar obras maiores.
Durante algum tempo, o mercado enxergou principalmente a redução do preço.
Agora começa a perceber também o que foi perdido nesse processo.
O pequeno aplicador não é o problema
É importante deixar isso muito claro.
Existem pequenas empresas de impermeabilização excelentes, conduzidas por profissionais competentes, experientes e comprometidos, que entregam trabalhos de ótima qualidade. Algumas possuem conhecimento prático de aplicação superior ao de empresas muito maiores.
O problema não é esse profissional ter aberto sua própria empresa. Muito menos o crescimento das pequenas empresas.
O problema começa quando imaginamos que uma estrutura formada por três, quatro ou cinco pessoas consegue substituir integralmente outra preparada para trabalhar com vinte, trinta ou quarenta profissionais.
Ela pode executar muito bem determinado serviço. Pode ser tecnicamente excelente e atender perfeitamente uma obra compatível com sua capacidade. Mas existe uma realidade simples que competência individual, sozinha, não consegue resolver:
Cinco profissionais não executam uma obra dimensionada para vinte.
Quando a demanda aumenta, essa pequena empresa precisa crescer. E crescer não significa apenas conseguir mais contratos.
Significa contratar e formar pessoas, criar lideranças, preparar encarregados, organizar orçamento, segurança, documentação, equipamentos, compras, planejamento, logística e fluxo financeiro. Em algum momento, aquele excelente aplicador precisa também se transformar em empresário.
E, quando isso acontece, sua estrutura de custos muda.
Quem tem empresa de impermeabilização provavelmente conhece essa história
No início, o proprietário executa pessoalmente, controla praticamente tudo e mantém relação direta com seus clientes. Muitas vezes, a qualidade do serviço está intimamente relacionada à sua própria presença na obra.
A empresa cresce. Surge uma segunda obra, depois uma terceira, e chega um momento em que ele simplesmente não consegue mais estar em todas elas. Precisa contratar pessoas, ensinar, delegar responsabilidades e desenvolver profissionais capazes de representar tecnicamente a empresa mesmo quando ele não estiver presente.
A partir daí surgem custos que praticamente não existiam quando a estrutura era mínima. Torna-se necessário ter encarregados, administração, planejamento, controle financeiro, equipamentos, segurança, gestão de pessoas e organização interna.
Então esse empresário volta ao mercado para disputar uma nova obra e encontra um profissional muito parecido com aquele que ele próprio era alguns anos antes: um aplicador experiente, trabalhando pessoalmente com dois ou três ajudantes, com uma estrutura muito menor e, consequentemente, um preço que ele já não consegue acompanhar.
Essa história se repetiu inúmeras vezes no setor.
E talvez explique parte do cenário que encontramos hoje.
Se você é construtor ou incorporador, talvez também precise olhar para trás
Durante muitos anos, os processos de contratação deram enorme peso ao preço unitário da impermeabilização. Quanto custa o metro quadrado? Quanto custa a aplicação? Qual fornecedor consegue reduzir mais?
São perguntas legítimas. Toda obra precisa controlar custos.
Mas talvez outras questões igualmente importantes tenham ficado em segundo plano. Qual é a capacidade real daquela empresa? Quantos profissionais ela consegue disponibilizar? Quantas obras está executando simultaneamente? Quem liderará a equipe? Como forma novos profissionais? Qual estrutura existe por trás daquele preço? Ela possui capacidade financeira para suportar a obra? Se o cronograma apertar, terá condições reais de aumentar sua produção?
Talvez tenhamos comparado, durante muito tempo, empresas estruturalmente diferentes como se fossem equivalentes.
Enquanto havia oferta suficiente de profissionais, essa diferença podia passar despercebida.
Agora começa a aparecer.
Porque chega um momento em que a discussão deixa de ser apenas quanto custa executar e passa a ser quem efetivamente consegue executar.
O mercado quer estrutura, mas muitas vezes remunera apenas produção
Esse talvez seja um dos pontos mais desconfortáveis dessa discussão.
Queremos empresas organizadas, profissionais treinados, documentação adequada, segurança, encarregados, planejamento, produtividade, controle de qualidade, responsabilidade técnica, assistência e capacidade de atendimento. Tudo isso é perfeitamente legítimo.
Mas, muitas vezes, quando chega o momento da contratação, grande parte dessa estrutura desaparece da análise e a comparação volta novamente para o valor do metro quadrado.
Existe uma contradição importante aí.
Não podemos exigir estrutura e, ao mesmo tempo, fazer com que essa estrutura se transforme apenas em uma desvantagem competitiva.
Estrutura, formação, supervisão, segurança, gestão, planejamento e retenção de bons profissionais custam dinheiro. Quando o mercado não reconhece esses custos, as empresas de impermeabilização começam a reduzi-los.
Primeiro desaparece uma função administrativa. Depois um supervisor passa a atender mais obras. Um treinamento é adiado. Equipamentos permanecem mais tempo em operação. O proprietário assume cada vez mais funções e tenta estar presente em todos os lugares.
Pouco a pouco, aquela estrutura que parecia cara simplesmente deixa de existir.
Eu acompanhei esse processo por dentro
Durante aproximadamente três décadas, minha atividade profissional esteve também diretamente ligada à execução de impermeabilização. Administrei equipes, formei profissionais, acompanhei obras, contratei, treinei, orcei e convivi com os desafios envolvidos em manter uma empresa de aplicação estruturada.
Vi esse mercado mudar.
Em determinado momento, empresas de impermeabilização organizadas deixaram de disputar obras apenas com outras empresas de estrutura semelhante. Passaram a concorrer também com antigos profissionais dessas próprias estruturas, agora empresários, trabalhando com dois, três ou quatro funcionários e com uma composição de custos completamente diferente.
Não há nada de errado nisso. Muitos desses profissionais tinham competência e mereciam construir seus próprios negócios.
O problema foi começarmos a tratar estruturas diferentes como se necessariamente entregassem a mesma capacidade produtiva.
Ao longo do tempo, minha própria atuação profissional foi migrando cada vez mais para consultoria, projetos, inspeções, avaliação de conformidades, desenvolvimento técnico e ensino. Talvez justamente por ter vivido durante tantos anos o lado da execução eu enxergue com preocupação o que está acontecendo agora.
Estamos desmontando a escola que formava os aplicadores
Existe um efeito menos visível e talvez ainda mais grave.
Quem vai formar a próxima geração de profissionais da impermeabilização?
Historicamente, grande parte desse conhecimento foi transmitida dentro das próprias empresas. O trabalhador entrava como ajudante, acompanhava os mais experientes, aprendia preparação de superfícies, execução de detalhes, aplicação dos sistemas e, progressivamente, assumia responsabilidades maiores.
Com o tempo, tornava-se aplicador. Alguns evoluíam para líderes, encarregados ou supervisores.
Esse processo funcionava como uma verdadeira escola prática.
Mas ensinar tem custo.
Um profissional em formação produz menos no início, exige acompanhamento, pode cometer erros e, principalmente, ocupa parte do tempo daquele profissional experiente que poderia estar produzindo.
Uma empresa maior consegue absorver melhor esse período de formação. Uma estrutura composta por duas, três ou quatro pessoas enfrenta uma dificuldade muito maior.
Imagine o proprietário de uma pequena empresa. Ele precisa estar na obra aplicando. É a produção dele que ajuda a pagar salários, impostos, combustível, ferramentas e as despesas do próprio negócio.
Como ele interrompe parte dessa produção para formar alguém?
E quem remunera esse processo de formação?
Ao mesmo tempo, muitas das empresas de impermeabilização que historicamente poderiam cumprir esse papel também foram enfraquecidas pela pressão constante sobre seus custos.
Criamos então um paradoxo: precisamos de novos profissionais, mas enfraquecemos justamente as estruturas que historicamente ajudavam a formá-los.
A cadeia deixou de se alimentar.
Produtos evoluíram. Processos evoluíram. E as pessoas?
Há alguns anos venho defendendo que a qualidade na impermeabilização depende de três elementos inseparáveis: produtos, processos e pessoas.
A indústria evoluiu enormemente. Temos materiais de excelente desempenho, novas tecnologias, equipamentos melhores e sistemas cada vez mais sofisticados.
Os processos também evoluíram. Os projetos ganharam detalhamento, aumentou a preocupação com interfaces, desempenho, procedimentos executivos e avaliação de conformidades.
Mas existe uma pergunta extremamente simples que precisa acompanhar todo esse desenvolvimento:
Quem vai executar tudo isso?
Podemos produzir um excelente projeto, especificar materiais adequados, desenvolver procedimentos detalhados e avaliar conformidades em todas as etapas. Mas, em algum momento, alguém precisa estar no canteiro executando.
E precisa saber executar.
É esse profissional que prepara a base, executa os detalhes, aplica o sistema, controla consumos, respeita intervalos, trata interferências e transforma aquilo que estava no projeto em obra efetivamente realizada.
Tecnologia não elimina a necessidade de pessoas capacitadas.
Pelo contrário. Quanto mais sofisticados os sistemas, maior tende a ser a necessidade de formação.
A conta já chegou às obras
Talvez este seja o ponto em que construtores, incorporadores e engenheiros que vivem o dia a dia do canteiro reconheçam imediatamente o problema.
Áreas prontas aguardam equipes. Frentes grandes são atendidas por grupos muito pequenos. Serviços perdem ritmo porque profissionais precisam ser deslocados para outras obras. Empresas tentam distribuir pouca mão de obra entre muitos contratos. Engenheiros cobram produtividade de estruturas que simplesmente não possuem capacidade para entregar aquele volume.
Do outro lado, empresas de impermeabilização tentam atender demandas superiores à própria capacidade instalada.
Quando isso acontece, é fácil resumir o problema dizendo que “a empresa está atrasada”.
Às vezes está.
Mas talvez seja necessário perguntar também: que tipo de mercado construímos para que tantas empresas de impermeabilização tenham chegado a esse ponto?
E essa pergunta não deve ser dirigida somente aos contratantes.
Ela também vale para as próprias empresas de impermeabilização. Quantas realmente investiram na formação das pessoas? Quantas criaram oportunidades de crescimento profissional? Quantas prepararam novos encarregados e líderes? Quantas estruturaram sua gestão para depender menos da presença constante do proprietário?
Não existe um único culpado.
Mas existe um problema.
E reduzi-lo simplesmente à “falta de mão de obra” talvez seja a maneira mais confortável de não discutir suas causas.
Talvez precisemos mudar a pergunta
A discussão não pode mais se limitar a perguntar onde encontrar aplicadores.
Precisamos começar a discutir onde os novos profissionais serão formados, quem vai formá-los, como esse processo será financiado e como criaremos condições para que boas empresas de impermeabilização consigam crescer sem serem penalizadas exatamente porque se tornaram mais estruturadas.
Construtores e incorporadores também precisarão desenvolver critérios capazes de diferenciar preço baixo de capacidade real de execução.
E as empresas de impermeabilização precisarão oferecer às novas gerações algo além de uma vaga de trabalho.
Precisarão oferecer perspectiva.
Porque, se não fizermos isso, continuaremos tentando contratar profissionais que simplesmente não estamos formando.
Talvez o maior risco da impermeabilização brasileira neste momento não seja a falta de tecnologia.
Talvez seja descobrirmos, tarde demais, que desenvolvemos excelentes produtos, excelentes projetos e excelentes processos, mas deixamos desaparecer parte da estrutura empresarial e profissional necessária para transformar tudo isso em obra.
E então talvez tenhamos de admitir algo ainda mais incômodo:
não foi simplesmente a mão de obra que desapareceu. Nós ajudamos a construir um mercado que deixou de produzi-la.
No próximo artigo, quero avançar exatamente a partir desse ponto. Porque reconhecer o problema é apenas o começo.
A próxima pergunta é: como voltamos a formar gente?
E talvez a resposta comece com três verbos que deveriam fazer parte da estratégia de qualquer empresa de impermeabilização que pretenda crescer e continuar existindo no futuro:
captar, qualificar e reter.
Continue acompanhando esta discussão.
Na próxima semana, publicaremos a segunda parte desta série, avançando sobre uma questão essencial para o futuro da impermeabilização: como captar, qualificar e reter novos profissionais para o setor.
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