
Série sobre a mão de obra na impermeabilização · Parte 3 de 3
Parte 1: A morte lenta das empresas especializadas em impermeabilização. Leia a Parte 1
Parte 2: Não basta treinar: como reconstruir a mão de obra especializada em impermeabilização. Leia a Parte 2
Em resumo
- A falta de mão de obra especializada não será resolvida apenas com cursos ou com o esforço isolado das empresas de impermeabilização. É necessário reconstruir a carreira na impermeabilização, com reconhecimento e condições econômicas para formar e reter profissionais.
- Construtoras, fabricantes, empresas especializadas, instituições de formação e entidades setoriais têm responsabilidades diferentes, mas complementares. A qualificação precisa ser tratada como uma responsabilidade compartilhada.
- O problema também é cultural. Enquanto as profissões de execução forem vistas como destino de quem “não estudou”, será difícil atrair uma nova geração para atividades que exigem cada vez mais conhecimento, técnica e responsabilidade.
Neste artigo
Nos dois primeiros artigos desta série, procurei mostrar duas partes do mesmo problema. Primeiro, como o mercado enfraqueceu as empresas que historicamente formavam profissionais. Depois, como carreira, qualificação e valorização podem ajudar a reconstruir essa mão de obra.
Mas chegamos a um limite: as empresas especializadas não conseguirão fazer isso sozinhas.
Se queremos realmente recuperar a capacidade de execução da impermeabilização, precisamos envolver quem contrata, quem fabrica, quem forma, quem representa o setor e, principalmente, mudar a maneira como enxergamos essas profissões, reconstruindo a carreira na impermeabilização.
O problema da construção deixou de ser apenas encontrar pessoas
Recentemente tive acesso ao estudo Mãos à Obra: Emprego e Produtividade na Construção, apresentado pela Fiesp, por meio de seu Departamento da Indústria da Construção e Mineração.
Foi particularmente interessante lê-lo depois das discussões que venho fazendo sobre a mão de obra da impermeabilização.
O documento trata a escassez de trabalhadores como um problema estrutural e relaciona atração, retenção, qualificação, produtividade, industrialização e gestão. Em uma pesquisa citada no relatório, realizada com empresas da construção em São Paulo, a dificuldade de retenção dos profissionais qualificados e a alta rotatividade passaram de 40,4% dos respondentes em 2023 para 51,4% em 2025. (Fiesp, 2026)
Essa informação é especialmente importante porque muda a natureza da discussão.
Não basta captar.
Precisamos conseguir qualificar e reter.
O próprio estudo defende que o capital humano seja tratado como ativo produtivo, e não apenas como custo variável, destacando que a perda recorrente de profissionais compromete o aprendizado, o planejamento e a própria modernização da construção. (Fiesp, 2026)
É exatamente esse ciclo que tenho observado na impermeabilização.
Talvez precisemos mudar uma frase que repetimos por gerações
Existe também um problema que nenhuma planilha de produtividade consegue resolver sozinha.
Ele é cultural.
Quantas vezes ouvimos, ou até repetimos, uma frase semelhante a esta?
“Estude, senão você vai virar pedreiro.”
Parece uma frase inocente. Muitas vezes é dita por pais querendo incentivar os filhos a estudar.
Mas existe uma mensagem embutida nela: estudar significa afastar-se do trabalho manual. Ser pedreiro, eletricista, carpinteiro, encanador ou impermeabilizador seria quase a consequência de quem não conseguiu outra coisa.
Talvez esteja na hora de inverter essa lógica.
Estude. Qualifique-se. E seja um excelente pedreiro.
Ou um excelente impermeabilizador, eletricista, instalador, armador, encarregado ou mestre de obras.
Não estou romantizando profissões difíceis. Pelo contrário.
São atividades que envolvem esforço, riscos, conhecimento, produtividade, segurança e responsabilidade. Justamente por isso precisam ser reconhecidas como profissões que exigem formação.
Quando uma ocupação passa a oferecer conhecimento, progressão, certificação, remuneração compatível e perspectiva, ela deixa de representar apenas uma vaga de trabalho.
Ela passa a representar uma carreira.
Em 2023 eu já defendia uma carreira na impermeabilização
Esse tema não surgiu agora para mim.
No 17º Simpósio Brasileiro de Impermeabilização, promovido pelo IBI em 2023, apresentei o trabalho “Aplicação da norma de qualificação de pessoas no desenvolvimento de plano de carreira do profissional impermeabilizador”.
O trabalho continua disponível entre os materiais técnicos do evento. IBI
Naquele momento, minha preocupação já era justamente estabelecer uma carreira na impermeabilização, com trajetória profissional baseada em competências, qualificação e evolução.
Três anos depois, é significativo observar uma discussão muito semelhante ganhando escala na construção civil.
O programa Trilhas Profissionais da Construção, desenvolvido por SindusCon-SP, Fiesp, Senai-SP, Sintracon-SP e Feticom-SP, organiza carreiras em sete áreas de atuação e sete níveis de evolução profissional, com critérios de qualificação, experiência e certificação. A iniciativa também prevê projeto-piloto com construtoras e empresas da cadeia. SindusCon-SP

Entre as sete áreas de formação apresentadas no lançamento está justamente a impermeabilização, ao lado de construção civil, formas, armação, sistemas de construção a seco, hidráulica e elétrica. Senai-SP

Não considero isso uma prova de que aquela proposta de 2023 estava “certa” e agora o mercado concordou comigo.
Vejo de outra forma.
É uma convergência de diagnóstico.
Diferentes setores estão chegando à mesma conclusão: não conseguiremos resolver a escassez apenas procurando profissionais que já existem. Precisamos voltar a produzi-los.
As empresas especializadas continuam sendo parte fundamental da escola
Nenhuma estrutura de ensino substituirá completamente o canteiro.
Impermeabilização possui conhecimento teórico, tecnológico e normativo, mas também possui conhecimento tácito, aquele que se constrói pela experiência.
É o profissional mais experiente que ensina como organizar uma frente, identificar uma base inadequada, compreender uma interferência, preparar um detalhe difícil ou perceber que determinada condição poderá gerar problema depois.
As empresas especializadas continuam sendo um ambiente essencial para essa formação.
Mas precisamos abandonar uma expectativa irreal: pedir que empresas pequenas, pressionadas por preço, prazo e fluxo financeiro, financiem sozinhas uma necessidade de todo o setor.
O próprio estudo da Fiesp propõe reconhecer a qualificação como uma responsabilidade compartilhada entre empresas, trabalhadores, entidades setoriais, instituições de ensino e poder público. (Fiesp, 2026)
Essa talvez seja a principal ideia deste terceiro artigo.
Construtoras precisam comprar capacidade de execução
Existe um papel especialmente importante para construtoras e incorporadoras.
Durante muito tempo, uma parcela relevante da contratação de impermeabilização foi conduzida principalmente pela composição de preço.
Quanto custa o metro quadrado?
Quanto conseguimos reduzir?
Quem consegue acompanhar o preço da concorrência?
Naturalmente, custo importa. Não defendo contratação cara nem ineficiência.
Mas existe uma diferença entre comprar preço e comprar capacidade.
Uma empresa que mantém profissionais treinados, encarregados, supervisão, segurança, planejamento, equipamentos, engenharia e programas de formação possui uma estrutura que custa dinheiro.
Se essa estrutura nunca tiver valor na contratação, ela se tornará uma desvantagem competitiva.
E desaparecerá.
Por isso, uma frase que considero central para esta série é:
O mercado precisa voltar a comprar capacidade de execução, e não apenas aplicação de impermeabilizante.
Isso significa avaliar empresa, equipe, formação, capacidade de mobilização, gestão e histórico, além do preço.
Não é pagar mais indiscriminadamente.
É entender o que estamos comprando.
Fabricantes podem ir além do treinamento de produto
Os fabricantes possuem um papel enorme nessa reconstrução.
Eles têm escala, tecnologia, centros de treinamento, profissionais técnicos e capacidade de alcançar empresas e aplicadores em diferentes regiões.
Historicamente, boa parte da capacitação oferecida pela indústria está ligada ao uso correto de seus próprios produtos. Esse trabalho é importante e precisa continuar.
Mas existe espaço para avançar.
O próprio relatório da Fiesp sugere integrar fornecedores às trilhas de formação, envolvendo projeto, especificação, montagem, operação, controle de qualidade e manutenção, além de combinar formação prática, certificação e progressão profissional. (Fiesp, 2026)
Na impermeabilização, isso significa evoluir de:
“como aplicar meu produto”
para:
“como ajudar a formar o profissional que trabalhará corretamente com as tecnologias do nosso setor”.
Isso também interessa ao fabricante.
Nenhuma tecnologia de alto desempenho resiste indefinidamente a uma execução ruim.
IBI, AEI e entidades setoriais podem ajudar a transformar iniciativas em sistema
Aqui entram entidades que considero fundamentais para a impermeabilização brasileira.
O IBI, Instituto Brasileiro de Impermeabilização, já reúne fabricantes, empresas, projetistas e profissionais e mantém uma produção importante de eventos, publicações, trabalhos técnicos e programas relacionados à qualidade do setor. O próprio trabalho que apresentei em 2023 está preservado na biblioteca do 17º Simpósio. IBI
A AEI, Associação de Engenharia de Impermeabilização, tem uma atuação historicamente próxima das empresas de execução e declara entre seus objetivos o desenvolvimento tecnológico, gerencial e de recursos humanos das associadas. A entidade também mantém iniciativas de capacitação e, em 2026, passou a destacar empresas por critérios que incluem qualificação de equipes, gestão, segurança e capacidade operacional. AEI
Essas duas entidades podem ter papel importante na criação de uma referência comum para a profissão.
E há sinais claros de mobilização.
O V Fórum AME Impermeabilização, realizado em Natal em 2026, atingiu recorde de público, com cerca de 250 participantes e ingressos esgotados antecipadamente. O encontro reuniu aplicadores, fabricantes, construtores, projetistas, consultores e diferentes entidades. AEI
Isso mostra que há interesse.
A questão agora é transformar interesse em estrutura permanente.
A impermeabilização também precisa conversar com o restante da construção
Não resolveremos um problema de cadeia conversando apenas dentro da impermeabilização.
SindusCons, Senai, entidades de trabalhadores, Fiesp, CBIC, instituições de ensino e outras organizações precisam participar dessa construção.
Os CREAs e o Sistema Confea/Crea também podem contribuir para uma cultura mais ampla de valorização técnica e aproximação entre engenharia, educação e profissões da cadeia construtiva, respeitadas naturalmente as atribuições institucionais de cada organização. O próprio Crea-SP coloca a valorização profissional entre seus eixos de atuação e trabalha em parceria com entidades de classe. Crea-SP
Não cabe a uma dessas entidades resolver tudo.
Cabe a cada uma fazer aquilo para o qual possui escala, legitimidade e competência.
Uma possível divisão de responsabilidades na formação profissional

Essa tabela não pretende definir responsabilidades formais.
Ela pretende mostrar uma coisa simples: não existe solução de um único protagonista.
De eventos e debates precisamos avançar para programas permanentes
O setor brasileiro de impermeabilização nunca teve tanta circulação de conhecimento.
Temos simpósios, congressos, fóruns, encontros regionais, cursos, podcasts, treinamentos e conteúdo técnico disponível diariamente.
Isso é excelente.
Mas talvez a próxima etapa seja conectar tudo isso.
Precisamos sair de:
evento → palestra → networking
e avançar para:
evento → agenda → formação → certificação → carreira → contratação → desenvolvimento contínuo.
O relatório da Fiesp chega a uma conclusão semelhante ao tratar governança como uma das frentes necessárias à modernização da construção: entidades representativas precisam mobilizar a cadeia, enquanto empresas, instituições de ensino e poder público precisam atuar de maneira coordenada para transformar iniciativas isoladas em uma agenda permanente. (Fiesp, 2026)
A impermeabilização tem condições de fazer isso.
Talvez até tenha uma vantagem.
Somos um setor relativamente pequeno, com profissionais, fabricantes, projetistas e empresas que frequentemente se encontram e se conhecem.
Essa proximidade pode ser justamente aquilo que facilite a construção de um modelo.
Não precisamos reconstruir o passado. Precisamos reconstruir a profissão
No primeiro artigo desta série, perguntei o que aconteceu com as empresas capazes de formar e manter grandes equipes.
No segundo, procurei mostrar como uma carreira na impermeabilização baseada em competências poderia ajudar a formar novamente esses profissionais.
Agora chegamos ao ponto final.
Não acredito que a solução seja tentar reconstruir exatamente as grandes impermeabilizadoras do passado. O mercado mudou. As empresas mudaram. A construção mudou.
O que precisamos reconstruir é outra coisa:
a capacidade de transformar pessoas em profissionais.
Talvez durante muito tempo tenhamos dito às novas gerações:
“Estude, senão você vai virar pedreiro.”
Está na hora de mudarmos a mensagem.
Estude. Qualifique-se. E seja um excelente pedreiro, impermeabilizador, eletricista, instalador, encarregado ou mestre. Faça dessa atividade uma profissão.
A construção continuará precisando de engenheiros, arquitetos, projetos, softwares, equipamentos, industrialização e novas tecnologias.
Mas, no final, alguém precisará transformar tudo isso em obra.
E esse alguém precisa enxergar conhecimento, reconhecimento, carreira e futuro naquilo que faz.
A falta de mão de obra não se resolverá sozinha.
Chegou a hora de reconstruir a profissão.
Sobre o autor
Alexandre Soncini é engenheiro civil, especialista com mais de 30 anos de experiência, fundador da Soncini Engenharia, com atuação em projetos, consultoria e avaliação de conformidades na impermeabilização. É também professor de cursos de extensão e pós-graduação em impermeabilização no IDD Educação Avançada, no IPOS e no INBEC e autor do trabalho “Aplicação da norma de qualificação de pessoas no desenvolvimento de plano de carreira do profissional impermeabilizador”, apresentado no 17º Simpósio Brasileiro de Impermeabilização, em 2023. IBI
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